Ouvindo agora uma promessa que pensei tua, uma promessa que quis minha, mas não sei. Não sei se alguma vez a cumprirei, se alguma vez a cumpriremos. Acho que sim, que é a primeira coisa na minha vida de que me arrependo, de não ter saído daquele pequeno bar em que me encontrava, e ter ido ao teu encontro. Ter largado tudo, e deixa-los sozinhos, deixa-la sozinha. Não sei, não faz sentido, agora não faz sentido mas na altura fazia um imperceptível sentido. Um sentido que se mostrou perverso, um sentido que se mostrou malévolo ao magoar-me, ao magoa-la com a minha fuga. Sim fugi e não está certo, sei agora que não está certo. Sinto vergonha. E tudo poderia ter mudado naquela noite, naquela singular noite em que me querias, e eu no fundo também te queria. Foi só mais uma estupidez dum estúpido que tem mais medo que tu. Acredita que tenho mais medo que tu. Porque achas que nunca te procurei mais. Porque achas que sabendo onde moras, sabendo onde trabalhas, sabendo onde estás não cheguei a tua beira, como tantas vezes disse, e te toquei, te beijei, te abracei para não te deixar fugir. Porque temo. E tenho medo, não da tua nega mas do teu sim. Do teu doce mas pesado sim. Esse é que me levaria a terrenos diferentes, penosos e difíceis. Quem sabe um dia mais tarde como tu própria disseste. Quando fores mais velha, mais dura ainda, mais cortante do que já és. Quem sabe se nessa altura, para nos magoarmos mais nos toquemos, nos beijemos, nos amemos ardentemente, a cortar o coração.