Procuro-te no ar e não te encontro. Olho o mar, a terra, e nada me dizem sobre ti. De ti apenas sinto que existes agora e sempre longe de mim. Sei que um dia nos encontraremos e finalmente te poderei tocar para além de te conhecer. Pois é, conheço-te melhor que possas imaginar. Conheço-te para além da própria razão pois a razão não te pode explicar ou conhecer tão bem como eu. Vivo agora na esperança de um dia te encontrar no ar como um dia me encontraste. Sem saberes mostravas-me algo que não queria ver. Procuro agora no ar talvez aquilo que perdi ao encontrar-te, ou aquilo que me negaste ao perder-te. Procuro-te a ti, ou talvez a mim, aquele que passar primeiro e me der a mão, perdido aqui à beira deste mar. Volto a olhar o horizonte e só, contemplo uma das maravilhas que te quis um dia dar. Oiço o mar a falar de outros, de tantos outros que o habitam, que procuram nele refugio mas não quero saber. Não me importam. Quero saber de ti e filtro de todos os sons do mar uma noticia tua, mas nada. Fecho os olhos e parto. Deixo nesta praia a lembrança de ti para que um dia a venha resgatar e continuar a procurar.
Uma noite sem nós.
Por baixo da mesa um levetoque no pé. Protegida pelos sapatos aquela pele já se conhecia intimamente, mas o toque silencioso fazia afora tremer mais fundo os corpos que o beijo no rosto com que se cumprimentaram. O segredo entre os dois levava-os para um sitio visitado na noite anterior. Não escondiam nada um do outro mas tudo do resto do mundo e isso fazia-os sorrir. Já por varias vezes os seus olhares se tinham perdido no silencio mutuo mergulhado na conversa alheia. Breves momentos qye se capturados por alguem os denunciaria. Mas rapidamente esses eternos instantes eram diluidos em frases atiradas à toa para o meio da conversa.
Estavam os dois particularmente felizes nessa noite, mas o restante grupo desconhecia o porquê e tomava como normal as suas acções. Estavam afastados pela mesa e algumas cadeiras. Nem sequer frente a frente estavam mas sentiam-se muito proximos um do outro e isso fazia-os sorrir mais do que conseguiam mostrar.
Tira mais um guardanapo para a mesa. É um gesto batido da sua personalidade mas este não é amassado, rasgado nem transfomado numa reles replica de avião. Uma caneta, uma pincelada de tinta e um desenho aparentemente sem sentido, não fora a forma reconhecida por ela. Era o mesmo desenho que tatuava o seu ventre, um sarrabisco amoroso que ele lhe fizera na noite anterior e beijara durante longas horas. Acompanhando o mais que sentido desenho, duas mãos envolvendo-o. Instintivamente, ela leva a sua mão à barriga e tenta suster o mesmo reflexo que o seu beijo provocara. E sorri.
Mais uma cerveja gelada pois os corpos já suam do calor e das brincadeiras inofensivamente provocantes continuam.
Um momento mais prolongado derrete-o e quase sem controla. Aperta os labios um contra o outro no envio dum beijo. O sorriso dela era tão brilhante e doce que nem toda a força do mundo lhe resistiria e a pouca que lhe restava não o queria fazer. Rendera-se em seus braços e adormecera dum sonho que não queria acordar. Ao abrir os olhos nessa manhã fora a primeira imagem que vira e tinha-o derrotado definitivamente.
A discussão acende-se e pela primeira vez tomam atenção ao que se falava. Mais uma discussão batida mas ainda sem solução nem unanimidade de opinião. Já antes haviam discutido sobre a questão, um contra o outro, mas agora já não pensavam por si só. Uma observação mais forte leva-a a reagir. Era da mesma opinião mas agora já não estava tão segura. Sabia que o magoava aquela insinuação e falou. Falou contra desta vez, como se fosse ele a falar, somo se os beijos da madrugada tivessem deichado as palavras dele em seus labios. E fluiam. Corriam como verdades suas, proprias e inquestionaveis. Fazia-o porque o entendia e sentia o que ele sentia.
No interior de cada um que se sentava naquela mesa a duvida. Mas uma duvida inconsciente que facilmente se dissipou despercebida e a conversa continuou.
Ele no entanto não ficara indiferente e tremia nao se contendo. Olhava-a incessantemente, olhava os seus labios a mexerem-se e a embala-lo num estado de embriegues agradavel. Olhava a docura dos seu olhos que o prendia ainda mais. Queria tocar-lhe, abraça-la, tê-a nos seus braços e junto a si por mais um infinito instante. As suas mãos, escondidadas pela mesa, tentavam alcança-la, despresando o perigo de contacto externo. Tremia e sabia que já não era só. E em voz alta disse o que só a almofada e o ouvido dela ouvira na noite anterior. Depois dum sonoro "Amo-te. Sou teu e para ti" repetia agora a conclusão "até ao fim".
Ela olhava-o nos olhos, na alma e no coração e lembrando-se do som de todas as suas palavras sorriu.