Os olhares de quem nos vê numa noite escura são demasiado penetrantes para serem ignorados. Ouvem e sentem tudo antes mesmo de acontecer pois podem estar mais perto de nós sem que os detectemos. Em cima da bruma, encobertos pelo manto chuvoso que cai, observam o pulular da nossa alma, sem licença, sem perdão e com os olhos do julgamento antecipado. Veêm principalmente tudo aquilo que queremos esconder, os mais intimos segredos duma vida camuflada de ideias e pensamentos obscuros. Penetram a parede de defesas irrisorias aos seus olhares e viajam onde todo e qualquer outro ser é expulso à entrada. E gostam. Gostam de tocar e banharem-se em rios de lama podre e fétida que por inactividade se tornou viscosa e corrosiva. Bebem sedentos o liquido poluido duma alma escondida por tras de um sorriso. Banham-se alegre e jocosamente nesse poço fundo que todos nós temos e tentamos esconder. Mas é nessas noites, e como concequencia desses banhos violadores que tudo transborda e se espalha um pouco sobre a luz que impera. É em noites assim que tudo parece ser grande demais para esconder, para manter afastado da vista do mundo, e algo escapa. Um passado doloroso misturado com uma ferida recente juntam-se agora numa dança exotica, quente e toxica para queimar quem menos merece. Quem menos nós queremos queimar, mas nada o pode já impedir. Um sorriso malefico deixa-nos de mansinho enquanto nos apercebemos do passo em falso que demos. Aquela magoa que fora já esquecida voltou apesar de todos os esforços feitos e foi logo tocar quem tu gostas, quem tu queres proteger e já está feito. Resta-te somente correres mais um pouco ainda. Mostra que vales o que sentes e sorri de volta ao sorriso que te abandonou. Aceita a sua presença e abraça-o, e ofende-o com a revolta, ofendo-o com a aceitação dos teus erros, fere-o de morte com a tua negligencia por esconderes o que nao tem esconderijo dentro de ti. Aceita-te como foste, porque só podes mudar o que serás. E então, os seres da noite escura que viajam dois palmos acimo do nevoiro que te cega passarão por ti e como eu verás a beleza da tempestade sem a temeres.